sábado, 28 de agosto de 2010

Professor de ortodontia passa no vestibular para estudar Museologia

Pela idade, era para ter se aposentado. Em vez disso, Dante Bresolin prestou vestibular para museologia, sonho de menino. Ele é o calouro mais idoso de um lugar onde os colegas de sala terão idade para ser seus netos

Marcelo Abreu

Aos 65 anos, Dante Bresolin virou calouro. Em setembro, se até lá a greve dos funcionários da Universidade de Brasília (UnB) deixar, ele entrará de caderninho novo e se sentará perto do quadro-negro. Ele gosta de prestar atenção às aulas. Ao lado dele, rapazes e moças, uma garotada esperta que acabou de terminar o ensino médio — gente que mora com os pais, usa laptop, internet adoidado, Facebook e todo esse mundo digital. Ele — de cabelos branquinhos (o pouco que restou), caneta e papel e uma vontade quase adolescente de continuar descobrindo — também estará lá. Igualzinho aos moços e às moças supermodernos.

Este homem, aprovado no segundo vestibular da UnB, é um doutor em proporcionalidade facial. O quê? Sim, desses com PHD e tudo. Ele é dentista, com mestrado em ortodontia pela University of Washington, em Seattle, EUA, e doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Há 40 anos, dedica-se a estudar e a tratar a função e a estética dentária e facial dos seus pacientes.

Ele é professor titular no mesmo lugar em que irá virar calouro. E está com o coração batendo apressado de felicidade pela conquista. “Este é o terceiro vestibular que tentava. Agora, passei. Quase não acreditei quando vi meu nome na lista”, festeja, como se fosse um menino de 18 anos. No dia do resultado, na quarta-feira à tarde, o calouro de 65 anos levou ovos e farinha na cabeça. Ficou imprestável. Parecia menino que tinha brigado na rua.

Nem a mulher, que o acompanhava no dia do resultado, escapou. “Levei tanta ovada que até doeu, mas não liguei, não. Tava feliz pela vitória dele. Eu sei como ele quis entrar nesse curso”, comemora a dona de casa Rosa Maria Fabrino Bresolin, 61 anos, sua grande e fiel torcedora.

“O engraçado é que os rapazes me perguntavam, educadamente: ‘A gente pode jogar farinha na cabeça do senhor?’. Eu dizia que sim e eles foram jogando. Virei um deles. E chorei muito, junto com minha mulher e minhas filhas”, emociona-se o calouro-doutor — um homem miudinho, de calça de tecido preta, camisa salmão de mangas curtas, andar compassado, fala pequena com sotaque gaúcho e uma simplicidade quase comovente. Muito diferente da arrogância e onipotência de grande parte dessa gente que ostenta PHD. O doutor Dante é, de fato, um doutor. E doutor se reconhece. Nunca se impõe.

"Preciso me atualizar. Serei o avô da turma. Vou comprar um laptop e um celular, que nunca usei"

É esse homem que fará parte da terceira turma do novíssimo curso de museologia da UnB. Estudar museus e suas histórias, para entender o presente, era sonho que acalentava havia anos. Ele sempre gostou da estética das coisas, das formas. Não foi à toa que escolheu, dentro da odontologia, a especialidade que cuida da estética e da harmonia da face e dos dentes alheios. Faz gente se sentir gente. No seu consultório, no Setor Comercial Sul, muitas vezes a cadeira virou divã. Dante é doutor não somente por ter PHD. É doutor porque gosta de ouvir gente.

E vem de longe a observação do menino que se encantava com o mundo, suas descobertas e suas gentes. Lá na gaúcha Ijuí, entre Cruz Alta e Santo Ângelo, o filho de um jornalista e de uma dona de casa cresceu acreditando que podia mudar o mundo. Em 1962, mudou-se para uma cidade maior, Santa Maria. Terminou o científico. Depois, aos 17 anos, foi servir o Exército, em Porto Alegre. Ficou apenas um ano. Sabia que ali não estava sua vocação.

Cinema
Veio o ano do vestibular. O rapaz miudinho fez um teste vocacional para saber qual seria sua real aptidão. O pai jornalista queria que o filho mais velho fizesse direito. “Nem a psicóloga soube interpretar. Aí, eu disse pra ela que seria dentista. Ela tava tão perdida que concordou”, ele ri.

E por que, afinal, Dante teria escolhido ser dentista? De uma forma sensacional, ele responde: “Quando eu era criança, em Ijuí, em frente à minha casa, morava um dentista. O consultório dele era numa salinha dentro de casa. Toda tarde, por volta das seis horas, ele fechava a portinha do consultório, se arrumava, pegava a mulher e saía para o cinema. Eles iam todas as noites. Aí, eu pensei: ‘Deve ser muito bom ser dentista. Ninguém consegue ir ao cinema todos os dias... Só um dentista’. Resolvi ali”.

"O que dá sentido é a realização. Ser produtivo. A gente pensa que sabe, mas nunca sabe tudo. Tá sempre aprendendo"

Bons tempos, aqueles em que o dentista podia ir todo dia ao cinema. Hoje, depois de 27 anos como professor da UnB, o doutor em ortodontia ganha menos de R$ 4 mil por mês e tem uma sala acanhadíssima no departamento. Nem computador há. No lugar dele, uma máquina manual. Sobrevive graças ao seu consultório particular. “É por isso que nunca parei de trabalhar. Fui pai aos 40 anos, tenho três filhas que ainda precisam muito de mim”, diz.

Voltemos a Porto Alegte de meados de 1960. O rapaz, então, prestou vestibular para odontologia. Fez as provas na própria capital gaúcha e em Diamantina (MG). Passou em ambas as universidades federais. Preferiu a cidade mineira. “Naquela época, os melhores professores do país estavam lá. Não tive dúvida”, conta.

Aos 24 anos, em 1969, o rapaz miudinho se formou. Em Diamantina, conheceu Rosa Maria, sua mulher. Enquanto não arrumava um emprego em sua área, conseguiu um estágio em antropologia física, no Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, ligado à UFRJ. “Ali, decidi fazer minha dissertação de mestrado sobre considerações antropológicas em ortodontia.” Em dezembro de 1972, Dante tornou-se o terceiro mestre em odontologia do país.

Aluno outra vez

E chegou a Brasília, para tentar a vida naquilo que havia escolhido. Em 1973, abriu seu consultório no SCS. Até hoje está no mesmo endereço. Em 1978, começou a dar aula de ortodontia numa faculdade em Anápolis(GO). Em Brasília, ainda havia o curso de odontologia. E assim a vida seguiu: consultório e a estrada que liga Brasília a Anápolis.

Veio o segundo mestrado, desta vez nos Estados Unidos. Em 1983, o convite, pela excelência do currículo, para ensinar na UnB. E de lá pra cá, todos os dentistas formados naquela instituição foram alunos dele. Em 1995, o doutorado, no Rio de Janeiro. E o trabalho no consultório, sem faltar uma semana nem desmarcar paciente.

Daqui a cinco anos, aos 70, se não sair antes, ele será convidado a deixar a sala de aula. É a aposentadoria compulsória. “E eu adoro a vida acadêmica, essa agitação, o engajamento”, diz, comovido, quando, nesse momento da entrevista, residentes de medicina invadem a Faculdade de Saúde, com banda de música e apitos, protestando por melhor remuneração e pela reforma do pronto-socorro do Hospital Universitário de Brasília (HUB).

Dante tentará conciliar a vida de professor, de dentista e de aluno-calouro. “Vou me virar. Se não puder mais dar aula daqui a cinco anos, com a compulsória, ser apenas aluno. Tentei o vestibular pra museologia três vezes. Não estudei. As disciplinas da área de humanas sempre gostei. Leio muito, sobre todas as coisas. Acho que fiz uma redação razoável. Mas há mais de 40 anos não via nada de matemática, física e química. Não passei nas outras duas vezes porque ainda não tinha aprendido o macete das provas. Acho que agora aprendi”, diz.

Planos do calouro? “Preciso me atualizar. Serei o avô da turma. Vou comprar um laptop e um celular, que nunca usei. Minha mulher tem; eu, não”, diz. E lembra: “Hoje, nas minhas aulas, mal vejo a cara dos meus alunos. Eles estão sempre com seus laptops ligados”.

E depois de formado em museologia, aos 70 anos? “Se tiver uma chance, vou exercer a profissão. Existem museus particulares, instituições. Alguma coisa vou saber fazer. Só não posso mais prestar concurso público pra nada, né?”

Em setembro, o doutor Dante, o calouro mais idoso deste vestibular, entrará numa sala de aula do curso de museologia. Prestará atenção às aulas, como se fosse o primeiro dia. Talvez o sentido de vida seja sempre esse mesmo: recomeçar, sempre. E ele sabe disso: “O que dá sentido é a realização. Ser produtivo. A gente pensa que sabe, mas nunca sabe tudo. Tá sempre aprendendo. Acho que ainda não cumpri o que desejo. Quero ter um endereço de trabalho enquanto força tiver...”.

O doutor (desses que têm PHD, não ostentam nem fazem disso o cartão de visita — uma raridade) virou calouro. E só pensa em comprar o primeiro caderno para escrever a primeira aula. Humildade é para poucos.

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